Na Argentina ou em São Gonçalo, #NiUnaMenos

by Think Olga

Cultura-do-estupro
Ao longo de quatro anos, uma vendedora de 34 anos, moradora de São Gonçalo, no Rio de Janeiro, foi vítima de quatro estupros, todos praticados por integrantes do mesmo grupo de algozes. No último, pelo menos 10 homens a violentaram. Esta história de abusos poderia ter acabado quando a Polícia Militar parou o ato, prendendo os criminosos em flagrante. Mas, ao invés de amparada e protegida, a vítima foi exposta e humilhada, vivendo a partir dali uma #ViolênciaEmDobro. De acordo com o Jornal Extra, ela foi levada para a delegacia na mesma viatura que dois de seus estupradores. Depois foi exposta em um boletim de ocorrência com termos e palavras vulgares e violentas, apontando em quais momentos do abuso a mulher gritou ou pediu ajuda, trazendo as reações dela como pontos de destaque a se analisados - não a prática do crime por parte dos homens. A Polícia Civil interviu no caso para investigar o agente da PM responsável pela descrição do boletim. O estupro é a mais simbólica manifestação do poder que se dá ao masculino em uma sociedade patriarcal. O que poderia confirmar mais este fato do que a existência de homens sistematicamente mantendo uma mulher como um objeto a ser usado, como aconteceu com a vendedora de São Gonçalo? O fato de que as filhas dela, de 12, 13 e 14 anos poderiam facilmente ter sofrido os mesmos abusos? A lembrança de outro estupro coletivo, sofrido por uma jovem de 16 anos na cidade do Rio de Janeiro? Ou a recente e dolorosa morte de Lucía Pérez, estudante também de 16 anos, que foi drogada, estuprada e empalada até a morte na Argentina? A ideia de que a violência de gênero é estrutural e coloca qualquer mulher em perigo é assustadora. Vivemos em uma sociedade que culpabiliza ao invés de acolher e silencia vítimas para proteger algozes. A cultura do estupro é uma calamidade silenciosa. Mas somos muitas. E, juntas, somos mais fortes para vencer o machismo. Fazemos o barulho que uma mulher, já enfraquecida pela violência ou até eternamente silenciada por ela, não conseguiria fazer sozinha. E, aos poucos, vamos quebrando este iceberg.
Arte: tamokuteki16.